Nunca mais
A tua face será limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem possa viver
Sempre.
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória a luz e o brilho do teu ser,
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
Sophia de Mello Breyner Andersen - Meditação do duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal
Quisera poder saber
O que para mim foras
Se eras aquilo que puderas
Ou se foras apenas o que quiseras
Embora sabendo que me dera
A duras horas me lançaras
Porque sem saber o que tu eras
Queria saber por onde erraras
Hoje sei que não quiseras
Nada daquilo que fizeras
Ignorar já isso não pudera
Julgar meras as palavras que disseras
Voltasse tudo a ser o que era
Qual se o tempo não correra
Teria como única quimera
Voltares a ser o que tu foras
Ivan Mourão
Uma nave extraterrestre procurava por vida inteligente em outros planetas.
E eis que, após uma exaustiva busca, encontraram a Terra
E decidiram fazer uma visita.
Ao chegarem lá, viram o ser humano poluindo o ambiente,
matando-se uns aos outros,
destruindo, agredindo e brigando.
Depararam-se com a fome, a pobreza, guerras e manifestações.
Tentaram entrar em contato com algum daqueles seres
mas foram recebidos com tiros e pedradas.
Notaram que além de tudo, aquela civilização era hostil.
Entraram de volta na espaçonave
e saíram rapidamente daquele estranho lugar.
Não havia mais nada a fazer ali.
Não existia vida inteligente naquele planeta.
Foram embora buscá-la em outras galáxias.
Gaston Leonardo Stefani. in Reflexões

DOBRE
Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão
Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.
Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.
Fernando Pessoa, 1913
Imagem de Chris Achilleos
SONETO, Olavo Bilac [não é o dos Santos & Pecadores.. ;-P ]
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de acções sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Insônia Respiratória
Antes nunca
Ouvira o invisível poema
Do respirar: não
Ouvira nada
Só o silêncio dos órgãos
Mas o segredo da vida
Era isso
Quando ninguém
Se lembra do corpo
Que de fato
É feito da mesma matéria
Do sono
O poeta brasileiro Sebastião Uchoa Leite, galardoado este mês com o Prémio Portugal Telecom de literatura, morreu ontem aos 68 anos de idade num hospital do Rio de Janeiro, vítima de insuficiência cardíaca, anunciou hoje a sua família
Natural de Timbaúba (Pernambuco), Sebastião Uchoa Leite licenciou-se em Direito e em Filosofia pela Universidade de Pernambuco. O seu primeiro livro de poesia, "Dez Sonetos Sem Matéria", foi publicado em 1960, seguindo-se, entre outras, "A Ficção Vida", "Uma Incógnita" e "Espreita".

"Como o sangue, corremos dentros dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memória, as ideias, a esperança eo desencanto."
Antídoto - José Luís Peixoto
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo (1958)

O poeta português João Rasteiro recebe no dia 7 de Novembro, na Sala do Cenáculo do Parlamento Italiano, o prémio Publio Virgílio Marone, atribuído no âmbito de um concurso internacional, pelo poema "A Dança das Mães".
Nascido no Ameal, em Coimbra, em 1965, o poeta já fora galardoado, há dois anos, com uma menção honrosa na VI edição do concurso internacional Città di Vado - Poesia Sulle Piastrelle, em Zacem (Itália).
Prepara-se para publicar, no próximo mês, o seu segundo título, "No Centro do Arco", após ter lançado o livro de poemas "Respiração das Trevas".
in Público
Continuem a ler Poema "Dança das Mães", por João Vilela Rasteiro
Na beleza incurável das feridas
alimentam-se mães sem trégua.
Nos rios secos, batem e batem os corações
alimentados em sangue frio e espesso.
Que é lívido.Que procura as raízes.
O coração é um bicho estranho, que vai caminhando
gota a gota.E as feridas imprudentes
aproximam-se das mães, imprudentes ao peso
de cada sopro. O amor eternamente feroz.
E as feridas das mães, são cada vez mais belas.
O medo caminha violentamente mais perto,
no corpo, na cara, nas vértebras e no ventre
onde se abriga com seu volúvel volume,
o silencioso amor de mãe.
Sob a folhagem da água, mães cansadas
da aridez que as toca, incendeiam-se através
dos filhos.E os filhos, esse chumbo cravado
nas asas, esse projecto que sobre o mar se estende,
alimenta as feridas pelos tendões.
As mães debicam sobre a areia a sua rota clara,
até ao fim do mundo.Como pela última vez.
Sobre a montanha, um filho incorpora-se na beleza
incurável das feridas, enquanto mães tacteiam
a pedra, até ser flor.
Por vezes sangram e cantam, secam os olhos,
arrancam os sexos e em permanente luta, corpo
a corpo, o amor estende-se, mas os gestos
são frios, neste caminhar obsceno
de pessoas sem frutos.Há-de caber numa gota, todo
o tempo, de uma vida sem história.
(Retirado de Usina de Letras)
Neste momento estou a (re)ler o livro "Deus das Pequenas Coisas" de Arundhati Roy, escritora premiada com o Booker Price.
Aqui fica um excerto do livro.. Uma boa definição do silêncio a que alguns se remetem:
"Uma gota calada flutuando num mar de ruído.(...)
Quando o mutismo chegou, ficou e alastrou em Estha. Estendeu-se para fora da cabeça e envolveu-o nos seus braços pantanosos. Embalava-o ao ritmo de uma pulsação antiga e fetal.
Enviou os seus tentáculos furtivos e viscosos para que se insinuassem pelo interior do crânio, sugando os montes e vales da memória, desalojando velhas frases, empurrando-as para longe da ponta da sua língua.
Despiu os seus pensamentos das palavras que os descreviam, deixando-os podados e nus. "

Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.
Vinicius de Moraes, 1938
P.S. Agradeço imenso a Susana Moraes, responsável pelo site Vinicius de Moraes e que organizou toda a sua antologia de textos.. Um abraço, Susana! :-))